quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Como a comunicação pode impulsionar o terceiro setor: desafios e soluções

 

Laura Maria, a Laubruta, une seus conhecimentos em publicidade e experiência na cultura urbana e periférica para promover a transformação social. / Crédito: qgnectarpark

Ir além de promover o consumo ou a venda de produtos, a publicidade aplicada no terceiro setor gera impactos sociais positivos e transformadores. O desejo de transformar realidades locais por meio da comunicação, experimentando, construindo e fortalecendo iniciativas sociais e expressões periféricas, impulsionam a publicitária Laura Maria, a “Laubruta”, em seus trabalhos na Fundação Gol de Letra e na agência de entretenimento Néctar Park.


Cria de projetos (Laura foi aluna da Fundação Gol de Letra quando tinha 10 anos) e "cria da fruta no Caju" (como ela mesma gosta de lembrar), sua trajetória é inspiradora e mostra como a comunicação e a cultura unidas podem criar impacto positivo no terceiro setor.


Além de publicitária formada pela Universidade Estácio, Laura é pós-graduada em Marketing Digital, Tecnologia e IA na Facha. Foi aluna do Projeto Brota (iniciativa do Sesc Rio, que capacita jovens na produção cultural independente). Agitadora cultural e captadora de recursos na Fundação Gol de Letra, desde 2022, Laura é cocriadora do Néctar Park, no Caju, onde cria projetos que potencializam artistas, coletivos e espaços culturais, explorando conexões criativas e narrativas autênticas. Leia a entrevista completa e inspire-se!


Gecom: O que te motivou a se formar em publicidade e se tornar uma profissional de comunicação no terceiro setor?


Laura Maria: Desde a infância, minha relação com a comunicação começou de forma muito orgânica. Fiz parte da Testemunhas de Jeová em que o uso da comunicação pública, da oratória e da argumentação persuasiva era central. Foi ali que despertei meu interesse por falar com pessoas, construir narrativas e compreender como as palavras podem mobilizar, convencer e gerar pertencimento. Aos 17 anos, durante o pré-vestibular que realizei na Fundação Gol de Letra, tive contato durante uma semana de imersão com profissionais de diferentes áreas, que compartilhavam suas trajetórias e experiências no mercado de trabalho. Esse momento foi decisivo. Compreendi que a comunicação poderia ser um caminho profissional possível e potente para mim. A partir disso, comecei a pesquisar sobre jornalismo e publicidade, e foi na publicidade que me encantei de vez. Entendi como ela influencia comportamentos, dita tendências, molda imaginários e movimenta massas, atuando diretamente na engrenagem do capitalismo. Ao mesmo tempo, percebi que esse mesmo poder poderia ser tensionado e ressignificado. Escolhi atuar no terceiro setor justamente por acreditar que a publicidade não precisa servir apenas ao consumo, mas também pode ser uma ferramenta estratégica de transformação social, amplificação de vozes historicamente silenciadas e fortalecimento de iniciativas coletivas que disputam narrativas e futuros mais justos.


Gecom: Como você passou a fazer parte da Fundação Gol de Letra?


Laura Maria: Minha relação com a Fundação Gol de Letra começa muito antes da minha atuação profissional. Fui cria do projeto, participei das atividades enquanto jovem e tive uma base fundamental de formação, escuta e acesso a oportunidades. Após me formar, retornei à Fundação de forma espontânea, com o desejo de revisitar esse espaço que marcou minha trajetória, reencontrar pessoas, compartilhar como estava minha vida e trocar experiências com a galera que seguia por ali. Esse reencontro acabou abrindo caminhos inesperados: a equipe conheceu meu percurso profissional, minhas habilidades em comunicação, e surgiu a oportunidade de ocupar uma vaga que estava disponível naquele momento. Assim, minha entrada na Fundação Gol de Letra como profissional aconteceu de forma muito orgânica, atravessada por afeto, pertencimento e pelo desejo de devolver, por meio do meu trabalho, tudo aquilo que um dia também recebi.

Cria do Caju, Laura, por meio do Néctar Park, traz visibilidade aos artistas, coletivos e espaços culturais do território. / Crédito: qgnectarpark


Gecom: De que forma a comunicação contribui para os resultados da Fundação?


Laura Maria: A comunicação é um eixo estratégico para o funcionamento e a sustentabilidade da Fundação Gol de Letra. É por meio dela que a instituição constrói narrativas, dá visibilidade às suas ações, fortalece vínculos com a comunidade, mobiliza apoiadores e garante a continuidade de seus projetos. Uma comunicação bem estruturada contribui diretamente para a captação e fidelização de doadores, para o engajamento de parceiros e para a transparência das ações desenvolvidas. Além disso, ela é fundamental para traduzir dados, projetos e metodologias em histórias compreensíveis e sensíveis, capazes de gerar identificação, confiança e participação. No contexto da Fundação, a comunicação também cumpre um papel político e social: valoriza as vozes dos participantes, rompe estigmas sobre territórios periféricos e disputa narrativas, mostrando que educação, cultura e esporte são ferramentas reais de transformação coletiva. Assim, a comunicação não atua apenas como divulgação, mas como uma ponte entre a Fundação, a sociedade e as pessoas que acreditam e investem neste trabalho, potencializando resultados e garantindo sua permanência ao longo do tempo.


Gecom: Em sua opinião, quais são os desafios da comunicação no terceiro setor e quais seriam as soluções para resolvê-los?


Laura Maria: Um dos principais desafios da comunicação no terceiro setor é a limitação de recursos financeiros, humanos e técnicos, o que muitas vezes coloca a comunicação em um lugar operacional, e não estratégico. Soma-se a isso a dificuldade de disputar atenção em um cenário dominado por grandes marcas, narrativas hegemônicas e pelo excesso de informação. Outro desafio importante é evitar abordagens assistencialistas ou estereotipadas, que reforçam visões simplificadas sobre pobreza, periferias e populações historicamente marginalizadas. Comunicar sem reduzir pessoas a números ou a histórias de sofrimento exige cuidado ético, escuta ativa e participação dos próprios sujeitos na construção das narrativas. Há também o desafio da mensuração de resultados, já que nem sempre os impactos sociais são imediatos ou facilmente quantificáveis, o que dificulta demonstrar valor para financiadores e parceiros. Como soluções, acredito no fortalecimento da comunicação como área estratégica dentro das organizações, integrada desde o planejamento dos projetos. Investir em formação continuada das equipes, em processos colaborativos e no uso inteligente de dados e indicadores pode ampliar a eficiência e a credibilidade da comunicação. Além disso, a produção de narrativas mais humanas, plurais e verdadeiras, construídas junto com a comunidade, aliada ao uso criativo das plataformas digitais, ajuda a ampliar alcance, engajamento e confiança. Assim, a comunicação no terceiro setor deixa de ser apenas uma ferramenta de divulgação e passa a ser um instrumento de incidência, mobilização e sustentabilidade institucional.


Sempre atualizada e em constante aprendizado, Laura acredita que o investimento em formação continuada das equipes pode tornar a comunicação no terceiro setor mais eficiente. / Crédito: qgnectarpark



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terça-feira, 25 de novembro de 2025

4° Prêmio MOL de Jornalismo para a Solidariedade: Como o Instituto MOL Reconhece o Poder do Jornalismo na Promoção da Solidariedade e do Impacto Social

Ganhadores do 3° Prêmio MOL de Jornalismo para a Solidariedade organizado pelo Instituto MOL. / Divulgação

A quarta edição do Prêmio MOL de Jornalismo para a Solidariedade, uma iniciativa do Instituto MOL, está com inscrições abertas até 14 de janeiro de 2026 e são gratuitas. O prêmio que reconhece produções jornalísticas e comunicacionais com propósito social tem abrangência nacional, valoriza reportagens que promovem a solidariedade, a diversidade e o combate ao racismo, fortalecendo um jornalismo mais plural em todo o país.

Os trabalhos serão avaliados nas categorias Jornalismo Tradicional, Jornalismo Comunitário e Jornalista em Formação, e podem ser submetidos em diferentes formatos: texto, áudio, vídeo, fotojornalismo e multimídia — este apenas para a categoria Jornalismo Comunitário.

O grande destaque desta edição é a criação do Troféu Helaine Martins, uma homenagem à jornalista carioca falecida em 2021, criadora do projeto Entreviste Um Negro e referência nacional na luta por um jornalismo antirracista e mais representativo.


Com 245 trabalhos inscritos na última edição, o prêmio demonstrou seu impacto em todo o território nacional.


O Gecom realizou uma entrevista com Ana Julia Rodrigues, líder de projetos do Instituto MOL, para explicar mais sobre o papel do jornalismo na promoção da solidariedade e da representatividade e também sobre o Prêmio. Descubra mais abaixo e aproveite para fazer sua inscrição.


Gecom: Nos últimos anos, tivemos uma efervescência do negacionismo, da polaridade e de fake news, culminando na desinformação. E como a informação é a matéria-prima da comunicação e, por consequência, do jornalista, de que forma o jornalismo, dentro da perspectiva de promoção das causas sociais, pode contribuir para uma mudança deste cenário?


Ana Julia: Gosto de pensar que a matéria prima da comunicação é a mediação. Se entendemos que a matéria prima do jornalismo não é apenas o fato isolado, mas a relação que se estabelece com a sociedade, então o enfrentamento desse cenário exige mais do que ampliar o volume de conteúdo, exige reconstruir vínculos públicos.

Dentro da perspectiva do jornalismo voltado às causas sociais, essa reconstrução passa por três dimensões que se reforçam: a aproximação com grupos historicamente pouco representados; a produção de informação contextualizada e a atuação em rede.

A desinformação prospera oferecendo respostas simples para problemas complexos. E o jornalismo comprometido com causas sociais atua no sentido oposto: oferece contexto, evidencia como políticas públicas afetam diferentes grupos, esclarece processos e ajuda o público a interpretar o que está acontecendo. Não se trata de ser “didático demais”, mas de reconhecer que, sem contexto, a sociedade fica mais vulnerável ao negacionismo.

E vale dizer que a desinformação circula conectada. Por aplicativos, grupos, influenciadores e plataformas. O jornalismo que trabalha com causas também precisa operar em articulação com mídias locais, coletivos comunitários, organizações da sociedade civil e comunicadores independentes.

Em resumo, o jornalismo pode contribuir para enfrentar a desinformação quando compreende que sua matéria-prima é a relação com o público. Uma relação que envolve confiança, reconhecimento e responsabilidade pública. Ao aproximar narrativas de quem vive os problemas, ao contextualizar e ao articular redes, atua diretamente na reconstrução desses vínculos e, portanto, na redução do espaço disponível para a desinformação.


O Prêmio reconhece profissionais e estudantes que promovem um jornalismo com propósito social, empatia e diversidade. / Divulgação



Gecom: Qual a importância dos jornalistas profissionais e dos comunicadores que atuam no terceiro setor na produção do jornalismo voltado para as causas sociais?


Ana Julia: O jornalismo sempre foi um serviço público, mesmo quando realizado dentro de empresas privadas. Isso significa que sua função central é produzir informação que permita às pessoas entenderem como decisões, políticas e conflitos afetam suas vidas. Quando falamos de causas sociais, essa responsabilidade se torna ainda mais evidente, porque envolve grupos e temas que historicamente receberam pouca atenção ou foram tratados de forma superficial.

Os comunicadores que atuam no terceiro setor trazem proximidade com territórios, vivências e agendas que muitas vezes não aparecem no noticiário tradicional. Eles ampliam o acesso a fontes, contextualizam realidades e aproximam o jornalismo da vida cotidiana das pessoas.

Essa combinação é relevante porque conecta dois saberes complementares: o domínio técnico do jornalismo e o conhecimento social acumulado pelas organizações. Juntos, eles ajudam a construir narrativas mais completas, responsáveis e sensíveis às desigualdades. Em um cenário de desinformação e perda de confiança, esse encontro fortalece o caráter público da informação e reforça o compromisso do jornalismo com a sociedade.


Ana Julia Rodrigues, líder de projetos do Instituto MOL. / Divulgação



Gecom: Como tem sido a recepção do prêmio Mol no estado do Rio de Janeiro, especificamente falando de favelas e da baixada?


Ana Julia: Desde a primeira edição, recebemos diversas reportagens de jornalistas e comunicadores do Rio de Janeiro. Na terceira edição, em especial com a criação da categoria de Jornalismo Comunitário, pudemos reconhecer que uma parte fundamental da produção jornalística no Brasil nasce nos territórios e a partir deles. E para o Prêmio, jornalismo comunitário não é uma categoria menor ou alternativa; é uma expressão legítima de jornalismo que atua diretamente onde a vida acontece, onde os conflitos se manifestam e onde a informação cumpre uma função concreta de cuidado público.

A recepção do Prêmio no estado do Rio de Janeiro, nas favelas e na baixada, mostra a força desse ecossistema. Esse engajamento do Rio confirma que o prêmio está dialogando com um campo que existe, é vigoroso e tem impacto real. Essa participação evidencia que, quando abrimos espaço e reconhecemos as especificidades do jornalismo feito por quem vive o território, fortalecemos a diversidade de olhares e ampliamos a capacidade do jornalismo de cumprir sua função social. É um retorno que valida a concepção do Prêmio: a de que o jornalismo comunitário é parte estruturante do jornalismo brasileiro e essencial para a democracia.


Jornalistas e comunicadores das favelas cariocas ou da Baixada Fluminense têm a oportunidade de terem seus trabalhos reconhecidos e premiados pelo Instituto MOL. / Divulgação



Gecom: Gostaria de aproveitar a oportunidade para ampliar esse convite aos jornalistas e comunicadores da região?


Ana Julia: Claro! Fica aqui o convite para que os jornalistas e comunicadores do estado enviem seus trabalhos. As inscrições ficam abertas até dia 14 de janeiro, então ainda tem um bom tempo para fazer a curadoria dentre seus trabalhos ou ainda, produzir uma reportagem. O período de publicação fica entre dia 1 de janeiro de 2025 e 14 de janeiro de 2026. Vale lembrar que são mais de 70 mil reais em dinheiro, distribuídos aos primeiros lugares de cada categoria. Todas as informações estão no site do Prêmio: https://www.premiodejornalismo.institutomol.org.br/ . Dúvidas ou sugestões, escrevam para nós no premiomoljornalismo@institutomol.org.br.

Esperamos por vocês.



Sobre o Instituto MOL

O Instituto MOL é a frente social do Grupo MOL e usa a força da comunicação para inspirar a generosidade e construir uma nação doadora. Atua em parceria com organizações da sociedade civil, veículos de imprensa e influenciadores para facilitar a conexão e diminuir barreiras de acesso à informação e fortalecer o ecossistema da cultura de doação no Brasil. Em seus projetos, estimula o engajamento cidadão, a doação e o protagonismo das OSCs.

Saiba mais em: www.institutomol.org.br.




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sábado, 25 de outubro de 2025

Jornalismo comunitário: o valor do trabalho em equipe

Equipe de jornalistas do jornal O Cidadão. Da esquerda para à direita, Ana Cristina, Christóvão Carvalho e Carolina Vaz. / Divulgação

“O jornal comunitário é muito mais do que um órgão de informação; é um instrumento de mobilização. É ele que vai estabelecer a verdadeira comunicação entre os membros da comunidade, o debate de seus problemas e a participação de todos nas soluções a serem dadas.” A afirmação é das autoras Ana Arruda Callado e Maria Ignez Duque Estrada, no livro “Como se faz um jornal comunitário”. A construção de um jornal comunitário envolve um trabalho em equipe onde as funções devem ser divididas basicamente em redação, fotografia e diagramação, além da revisão e da arte. Conforme a estrutura do jornal e dos recursos financeiros e materiais disponíveis, outras funções podem ser subdivididas e/ou acrescentadas. Ou seja, a sua produção e confecção podem variar bastante, mas ainda assim, alguns ingredientes são indispensáveis, como planejamento, organização e colaboração entre os comunicadores. 


Na Maré, o jornal O Cidadão é um dos exemplos em que o trabalho em equipe funciona desde quando era impresso e, hoje, como formato online. Sob a coordenação da jornalista Carolina Vaz, os jornalistas Christóvão Carvalho e Ana Cristina formam o time da mídia comunitária mareense.

Confira a entrevista.


Gecom: O que despertou seu interesse pelo jornalismo e o levou a seguir essa profissão dentro da comunicação comunitária?


Ana Cristina: Lá pelos meus 13 anos, já gostava muito de ler e escrever histórias. Em 2011, ingressei na primeira turma do Teatro em Comunidades, realizado no Centro de Artes da Maré (CAM). No ano seguinte, fiz parte de um grupo de Teatro do Oprimido e na peça que montamos eu interpretava uma apresentadora de televisão e uma repórter de campo. Na época, eu já estava pensando no que poderia fazer na faculdade, e uma das opções era Letras, mas depois do Centro de Teatro do Oprimido (CTO) eu comecei a abrir os olhos para o jornalismo.


Lembro que uma vez, uma estudante de jornalismo quis entrevistar nosso grupo para um trabalho de faculdade e eu fui uma das pessoas que falou com ela. Quando me disse que eu falava bem e que deveria tentar o curso, foi uma surpresa pra mim, porque sempre fui extremamente tímida. 


É aí que eu começo a pesquisar sobre o curso e percebo que ele era o ideal. Porque cresci fazendo coisas dentro da comunidade, sentia que a pessoa que eu vinha me tornando, as coisas que aprendia e a consciência social que formava, eram graças aos projetos dentro da favela, seja o curso preparatório, o pré-vestibular, ou os grupos de teatro. E aí, eu sabia que não queria ser jornalista para estar na grande mídia, eu queria ser jornalista para escrever sobre a galera da favela. Eu queria retribuir o que havia recebido da favela. 


No segundo semestre de 2017, ingressei na faculdade e me formei na segunda metade de 2021. Passei um tempo escrevendo matérias para o Portal DaFavela e, em fevereiro de 2022, ingressei no Jornal O Cidadão, onde atuo desde então.


Christóvão: Sempre fui muito comunicativo. Minha mãe conta que eu nem tinha dentes, mas já falava pelos cotovelos. Nunca fui tímido. Nunca tive problemas em me comunicar, de maneira alguma. Pelo contrário, a maior reclamação que meus pais recebiam da escola é que eu conversava demais, que fazia minhas tarefas e atrasava os outros colegas, conversando. Em casa, eu vivia lendo Turma da Mônica. Fui crescendo, e aderindo aos livros. Nos trabalhos com apresentação na escola, sempre fui muito bem. Sempre tive essa sagacidade comunicativa comigo.


Durante o ensino médio, mobilizava todas as turmas em projetos que incentivavam a nossa união, organização e criatividade dentro do tema proposto em cada ano letivo. No caso do terceiro ano, além desse projeto, os alunos deviam escolher uma profissão que gostariam de se graduar. Eu não pensava muito sobre isso, mas comecei a pesquisar profissões que fossem compatíveis com o meu perfil. No fim, entre fazer Letras e Jornalismo, eu preferi ser "profissional em fofoca". E foi muito bacana, porque compramos camisetas personalizadas com os nossos nomes e profissões para usar no último bimestre. Tenho a camiseta até hoje. Tudo começou antes mesmo da graduação.


Assim, logo no ano seguinte, aproveitei que uma colega da minha turma do colégio estava se matriculando na Unisuam e fui também. Fiz o vestibular, consegui um desconto na mensalidade e comecei assim. Inclusive, foi lá que conheci a Ana Cristina.


Conforme fui avançando, percebi que essa era a melhor e a mais arriscada profissão que eu poderia seguir, na minha opinião. Era a melhor, porque era onde queria estar. Era arriscada, porque nem todo mundo consegue seguir na profissão. O mercado é bastante fechado, bem amarrado. Tanto que não foi imediatamente após a faculdade que consegui minha oportunidade. 


Nunca tive proximidade com qualquer produção jornalística na Maré, mas quando estava me formando, nutria uma esperança de um dia trabalhar para a minha base. Era um desejo que tinha, porque sempre gostei de ver "os nossos" nas notícias, nos representando e conquistando qualquer coisa aqui de dentro ou lá fora.


No começo deste ano, a Ana me mandou mensagem dizendo que o jornal O Cidadão, havia aberto uma vaga e me indicou para o processo seletivo. Fui, conheci o Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (Ceasm), a Carolina Vaz (coordenadora do jornal) e o Luiz Antônio (sócio fundador e diretor do Ceasm) e, felizmente, eles me aprovaram e contam comigo.


Hoje, divido meu dia entre o jornal e o meu emprego CLT. É corrido, mas consigo me dedicar e estou muito feliz em estar aqui hoje. O Cidadão é uma ponte que transmite nosso real valor a todos os leitores do território e fora dele. Quem quer abrir a mente, também procura ver por perspectivas que realmente valorizam nossa identidade.


A jornalista e fotógrafa Ana Cristina coloca em prática sua vivência na favela da Maré para realizar seu trabalho no jornal O Cidadão. / Divulgação


Gecom: Você trabalha em parceria com outros jornalistas dentro do jornal O Cidadão. Como vocês dividem responsabilidades e colaboram para produzir conteúdo de qualidade?

Ana Cristina: Desde que comecei, a equipe do Cidadão basicamente se resume a três pessoas. É uma equipe bem pequena para uma demanda tão grande, mas gosto de dizer que o nosso trabalho flui porque tá todo mundo empenhado em ajudar quando o outro precisa. É um trabalho coletivo. No jornal, realizo entrevistas, escrevo matérias e também atuo como fotógrafa. Com isso, também realizo as edições de foto e faço filmagens e edições de vídeo das reportagens do jornal. Normalmente, fico com a tarefa da edição de fotos e vídeos, mas nas demais atividades a gente se divide. Então, contamos muito com reuniões de pauta para definir os nossos trabalhos e com quem vai ficar cada tarefa, por exemplo.


Christóvão: Sendo a Maré dividida entre 15 e 17 favelas, não é fácil manter funções fixas com uma equipe de três pessoas. Por isso, nosso segredo é manter uma versatilidade para produzir com frequência. Só em nosso site produzimos, em média, quatro notícias (bem elaboradas) por mês. Juntando com posts do Instagram, temos uma produção média de 8 conteúdos por mês.


Algo que faz toda a diferença é o entrosamento que temos. Nas reuniões de pauta, sabemos ouvir, dar opinião, trazer sugestões e traçar objetivos, com muita maturidade. Também mantemos uma comunicação constante pelo WhatsApp. E, por sermos versáteis, acabamos conseguindo nos adaptar às situações necessárias. Com cada um do seu próprio jeito, conseguimos nos complementar. Exige interesse e conhecimento em todos os assuntos que nos propomos a abordar, mas somos recompensados com um bom ritmo de postagens para manter a população bem informada sobre o nosso lugar, com uma boa variedade de assuntos que – pensamos nós, o mareense realmente gostaria de ler.


Repórter Christóvão Carvalho destaca o entrosamento da equipe no jornal para realizar um trabalho de qualidade na informação para os moradores do Complexo da Maré. / Divulgação

Gecom: Na sua opinião, como um jornal comunitário pode influenciar positivamente uma comunidade?


Ana Cristina: O jornal comunitário não contribui apenas com a comunidade, mas com quem vive nela. Quando a gente fala sobre projetos, eventos na região, ações sociais, direitos ou demais situações como um problema de água, luz ou a troca do nome de ruas, como aconteceu recentemente na Maré, a gente contribui com a comunidade.


Mas quando a gente fala de um feito importante de um morador ou moradora, quando a gente dá o destaque merecido para as suas narrativas, a gente contribui com a questão da valorização. 


Eu acho que o jornal comunitário tem muito desse papel. Não é simplesmente facilitar o acesso à informação nos territórios de favela, ele contribui incentivando e valorizando essas pessoas que formam a comunidade. Contribui contando e preservando histórias e memórias que a grande mídia invisibiliza.


Christóvão: O jornal comunitário explora notícias relevantes para a base do lugar. Além de divulgar trabalhos, dar voz, ser um canal de diálogo, cobrar direitos, levar informação e evidenciar talentos e profissionais do nosso território, o propósito deste trabalho também é de construir uma memória, muitas vezes, inexplorada pela mídia tradicional. Queremos criar consciência crítica, ajudar a comunidade a se organizar e olhar coletivamente para si.


Em questão de favela, enquanto os grandes veículos ganham mais audiência falando de violência, o jornal comunitário constrói memória e conta histórias que serão lembradas. Lá na frente, as próximas gerações de mareense poderão procurar e encontrar registros do lugar em que vivem. Isso constrói identidade, uma geração orgulhosa de suas raízes que, aliás, é muito forte já hoje. Costumamos utilizar muito a expressão "mareense" no jornal. É um adjetivo de orgulho por pertencer a essa favela. Quem é daqui, sabe olhar pelo prisma que evidencia e valoriza o que é nosso.


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segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Como a comunicação audiovisual inclusiva pode fazer a diferença no Terceiro Setor


A jornalista e produtora audiovisual e cultural Thaís Ribeiro participou da criação da TV INES, o primeiro canal brasileiro produzido em Libras para a comunidade surda. / Divulgação



O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2022) registra 14,4 milhões de pessoas com deficiência no país, sendo 2,6 milhões com dificuldades para ouvir. Estima-se que em 2025, cerca de 10 milhões de pessoas no Brasil tenham algum tipo de deficiência auditiva. Esses dados demonstram que ações efetivas de promoção da acessibilidade no audiovisual se tornam essenciais para que essas mesmas pessoas sintam-se incluídas na sociedade.


Entre maio e junho, a produtora audiovisual e cultural Thaís Ribeiro organizou a oficina Acessibilidade e Inclusão no Audiovisual na cidade do Rio e de Niterói, em parceria com a antropóloga e coordenadora pedagógica do projeto Bianca Arruda, para promover a reflexão e o debate sobre a necessidade de tornar os conteúdos audiovisuais mais acessíveis, bem como ampliar a representação de pessoas com deficiência (PCD) tanto nas telas quanto na produção de seus conteúdos.


Na entrevista a seguir, Thaís, que é formada em jornalismo e criadora da Luzidio Produções, conta como o audiovisual pode ser trabalhado no Terceiro Setor para promover uma comunicação inclusiva.


Gecom: Qual foi o caminho que te levou a trabalhar com a comunicação inclusiva para a comunidade surda?


Thaís Ribeiro: Sou formada em jornalismo, mas sempre trabalhei como produtora audiovisual. Trabalhei na TV Brasil por muitos anos e depois fui trabalhar na TV INES - o primeiro canal brasileiro para surdos, totalmente produzido em Libras, pelo Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). Também fiz trabalhos freelancers para a TV Escola, uma empresa de audiobook, uma produtora de recursos de acessibilidade e para a TV Cultura, onde roteirizei videoaulas para alunos surdos da rede municipal de educação de São Paulo. Atuei a maior parte da minha carreira como produtora, mas a partir de 2019 comecei a atuar também como assistente de direção, roteirista e produtora cultural.


Quando eu trabalhava na Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp), que era a responsável por gerir a TV Brasil, me chamaram para fazer parte da equipe do projeto da TV INES. Daí ele deu certo e cresceu bastante dentro da comunidade surda, estreando no dia 24 de abril de 2023, dia da Lei de Libras. A TV INES ficou no ar por oito anos e, infelizmente, acabou em 2021. A TV do instituto me introduziu no universo da comunicação inclusiva e, certamente, mudou meu olhar.


Gecom: De que forma a comunicação inclusiva pode contribuir para os resultados de uma ONG?


Thaís Ribeiro: A comunicação inclusiva é fundamental em todos os aspectos na sociedade. Além disso, a comunicação inclusiva amplia o público que pode acessar e interagir com as atividades da organização, criando mais oportunidades de engajamento, voluntariado e captação de recursos. Outro ponto importante é que ela ajuda a construir vínculos mais sólidos com as comunidades atendidas, uma vez que estas se veem representadas e respeitadas, o que gera maior participação social.


Ao adotar práticas inclusivas, seja no uso de linguagem acessível, na produção de materiais em diferentes formatos (Libras, audiodescrição, legendas), a ONG promove a valorização da diversidade cultural e a inclusão de narrativas que representem grupos historicamente marginalizados. Dessa forma, a organização demonstra coerência entre discurso e prática, consolidando sua credibilidade diante de parceiros, financiadores e beneficiários. Ou seja, investir em comunicação inclusiva é não apenas uma questão ética, mas também estratégica, pois aumenta a efetividade da missão da ONG e favorece resultados mais consistentes.



O ciclo de palestras e oficinas sobre acessibilidade no audiovisual promoveu aprendizados e reflexões aos produtores audiovisuais e culturais. / Crédito: Márcio Biriba



Gecom: Em sua opinião, quais são os desafios da comunicação inclusiva no terceiro setor e quais seriam as soluções para resolvê-los?


Thaís Ribeiro: Em primeiro lugar, é fundamental investir em acessibilidade atitudinal com o intuito de sensibilizar e ampliar o repertório sobre diversidade e inclusão junto às equipes que atuam no terceiro setor, especialmente no tocante à população com deficiência. Acredito que outros debates já estejam bem evoluídos, como os debates étnico-raciais e de gênero, porém quando falamos em acessibilidade e inclusão, ainda parecemos ter um longo caminho a percorrer. E, com certeza, o primeiro passo é conviver com pessoas com deficiência, dar espaço para que elas próprias possam falar sobre si, sobre as faltas e as potências que cada um carrega. Além disso, é premente investir em capacitação de profissionais que atuem nessa área; além de fomentar um mercado de trabalho - o que é essencial para uma verdadeira autonomia -, amplia-se o acesso e o convívio de pessoas com e sem deficiência, promovendo um verdadeiro compartilhamento do espaço e da comunidade.


Entretanto, muitas vezes as ações de acessibilidade não estão inclusas no orçamento das organizações, que geralmente também enfrentam dificuldades na captação de recursos para manter suas atividades finais. Acredito que o primeiro desafio nesse caso seja entender que a inclusão e as atividades necessárias para que ela se concretize devam ser pensadas como elemento fundamental no projeto, desde sua concepção e não apenas ao final do processo (como algumas vezes acontecem) ou, ainda pior, apenas quando solicitadas. Acredito que um caminho necessário seja incluir pessoas com deficiência nas equipes atuantes da ONG, com participação nas tomadas de decisão da organização. Investir em diversidade e equidade na própria equipe assegura que a inclusão esteja também no centro da missão da ONG, produzindo um ambiente e projetos menos assimétricos nesse quesito.





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